Com o fim do “susto inicial” provocado pela pandemia, congelando negócios de todo tipo no primeiro trimestre de 2020, empresas de todo o mundo voltam a mostrar apetite para as compras. No Brasil, o exemplo mais recente é a fusão entre Hapvida e Intermédica, um negócio de R$ 110 bilhões – comparável à união de Itaú com Unibanco. Diante desse cenário, duas perguntas podem surgir: De onde veio tanta euforia? Por quanto tempo ela deve se manter? 

Parte da resposta para a primeira pergunta pode ser respondida por meio do mais recente estudo da Bain&Company. De acordo com a consultoria, que analisou a atividade de Fusões e Aquisições durante o ano de 2020, a atividade movimentou US$ 2,8 trilhões – montante 15% menor do que o registrado em 2019. Ao todo, 28.500 negócios foram fechados, queda de 11% em relação a 2019. 

No cenário analisado, o setor de saúde não foi um dos mais representativos para a atividade, mesmo em um ano tomado pela importância e valorização do segmento. Ao todo, foram com cinco “megadeals”, ou seja, com mais de US$ 10 bilhões em 2020, ante oito em 2019. Além disso, o valor de fusões e aquisições em Medtechs (startups dedicadas a serviços médicos) caiu 60% em 2020. 

Para Kai Grass, sócio da Bain&Company, o resultado aparentemente contra intuitivo não traz nenhum segredo. “O montante menor registrado em 2020 está relacionado à ausência de negócios de grandes proporções realizados no período, fator relacionado à incerteza gerada com a pandemia. Além disso, a falta do ‘olho-no-olho’ e do contato presencial contribuem de forma significativa”, afirma o executivo. 

Olhando especificamente para o Brasil, a ausência de negócios de grande porte parece não ter atingido de forma significativa as negociações. Renata Simon, sócia do Candido Martins Advogados, escritório focado em operações de private equity, fusões e aquisições, afirma que o setor foi um dos mais movimentados no último ano. 

“Foi a nossa área de maior destaque. Vimos uma retração completa no segundo trimestre de 2020, mas a partir de então observamos essa retomada primeiro no mercado de capitais e, em seguida, nos negócios de fusões e aquisições propriamente ditos. De forma geral, a atividade foi bastante intensa em diferentes setores, passado o momento inicial da pandemia”, afirma. 

Para mostrar esse movimento de forma geral e ampla, o relatório da Bain&Company mostra que, globalmente, os setores de Energia e Finanças também tiveram um desempenho abaixo do registrado em 2019. Enquanto isso, setores como Tecnologia e Telecomunicações cresceram exponencialmente. 

De acordo com a consultoria, a redução no setor de Energia durante o ano está relacionada à brutal queda do petróleo durante o ano, que afetou as empresas do setor de forma massiva. Em Finanças, o foco está nas instituições financeiras tradicionais, que agiram com maior cautela durante o ano. 

“São setores que não têm um volume baixo de transações, mas eles não têm grandes variações de um ano para o outro, diferente de tecnologia e até de varejo, que foi bastante afetado no começo da pandemia. Nesse caso, é possível ver variações mais expressivas”, explica Bruno Amaral, sócio do BTG Pactual. 

Corporate Venture Capital, Private Equity e Mercado de Capitais 

Em relação à segunda pergunta feita no início deste texto “Por quanto tempo a euforia deve se manter?”, algumas tendências trazem a resposta: a primeira diz respeito ao comportamento das empresas na hora de buscar uma fusão ou aquisição. 

“Hoje, a maior parte das empresas busca alianças que possam trazer eficiência de escopo, não necessariamente ganhos de escala. É uma transformação bastante relacionada aos desafios do ambiente digital e aos esforços rápidos para se adaptar a um ambiente em constante mudança”, afirma Kai Grass, sócio da Bain&Company. 

Em números, os negócios feitos por diversificação de escopo representaram 56% de todos os grandes negócios fechados em 2020 (mais de US$ 1 bilhão, em dinheiro). Em 2015, eles respondiam por 41% do total. 

Outra tendência está no Corporate Venture Capital, em que grandes empresas criam um fundo para investir em novas empresas (como start-ups). Dessa forma, têm contato direto com a inovação sem o compromisso de adquirir formalmente outra companhia. 

De acordo com o Distrito, plataforma de inovação para grandes empresas, essa é uma atividade relativamente nova, mas altamente promissora: de pouco menos de 1 milhão de dólares em 2016, o setor movimentou US$ 158 milhões apenas três anos mais tarde. Segundo a Bain&Company, em 2020 esse montante foi ligeiramente menor: US$ 95 bilhões. 

Os setores mais aquecidos por esse tipo de investimento foram o de Tecnologia e o de Saúde, que responderam por mais de 60% do valor total de Corporate Venture Capital registrado. Outros que vêm “na lanterna” e devem ganhar mais força ao longo dos próximos anos são Serviços Financeiros e Telecomunicações. 

No Brasil, um exemplo recente é o dos aportes dos grupos Fleury e Sabin na startup Prontmed e na criação de um fundo de R$ 200 milhões para investimentos em até 18 startups. 

O movimento acirra a competição com os fundos de Private Equity – que têm US$ 2,8 trilhões globalmente, segundo a Bain&Company. Ambos buscam por objetivos similares: empresas com alto potencial de rentabilidade e crescimento e que precisem de capital para continuar crescendo. 

Para ter uma ideia do comportamento desse tipo de investimento ao longo do último ano, um estudo da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP) e KPMG mostra que o investimento médio por empresa no Brasil passou de R$ 91 milhões no segundo trimestre para R$ 409 milhões nos últimos três meses do ano. 

Para Bruno Amaral, sócio do BTG Pactual responsável por fusões e aquisições, esse cenário é influenciado por diferentes fatores: o apetite ao risco com baixas taxas de juros praticadas no país e o câmbio (desvalorização do real em relação ao dólar). Olhando o cenário de uma forma completa, é possível ver que, apesar do montante investido no país, esta não foi a primeira modalidade de investimento a se recuperar no segundo trimestre do ano passado – justamente pelo grau de confiança que requer. 

“A gente viu um primeiro semestre com a atividade muito impactada pela covid-19. Vários dos investimentos de M&A, que têm uma visão de médio e longo prazo, ficaram paralisados e, pouco a pouco, ganharam tração ao longo do ano. Foi um cenário muito diferente do investimento em bolsa, por exemplo, que já motivou companhias a partir do início do segundo semestre a intensificarem sua atuação”, afirma. 

De acordo com a visão dele e da consultoria, um ponto contribui para isso: a falta de contato pessoal e presencial. Ou seja, por mais que as ferramentas digitais tenham colaborado para reduzir distâncias, o bom e velho “olho no olho” ainda faz falta na hora de fechar compromissos longos. 

O que vem pela frente? O ESG 

Globalmente, a pandemia acelerou algumas tendências que já eram observadas anteriormente: a necessidade de se modernizar rápido para garantir novas habilidades digitais e a busca por negócios locais (principalmente por causa da dificuldade de logística em um ambiente com a covid-19), por exemplo. 

Nesse cenário, os critérios ESG (ambientais, sociais e de governança) também passaram a desempenhar um papel essencial, segundo a Bain&Company. Com a grande quantidade de dados disponíveis, empresas passaram a valorizar cada vez mais a atenção a esses critérios nos processos de due diligence, por exemplo. 

“Lideranças estão buscando isso, mas também seus acionistas, especialmente em empresas listadas em bolsa. Eles estabelecem critérios antes da aprovação de diferentes negócios, um comportamento que temos visto até no aspecto regulatório, especialmente com a União Europeia. As empresas estão fazendo fusões e aquisições levando em conta critérios que vão muito além da típica avaliação financeira, o que deve ganhar cada vez mais força”, afirma Kai Grass, sócio da Bain&Company. 

A preocupação com esses critérios tem gerado ações de empresas em praticamente todos os setores. Alguns exemplos recentes são o investimento da Ford de US$ 1 bilhão para avançar na produção de carros elétricos, a busca por moda sustentável por parte da Suzano e a defesa do Itaú Unibanco por investimentos capazes de combater a crise climática. 

Ou seja, mais do que nunca, a máxima de que “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta” nunca esteve tão atual para os negócios – e deve continuar a pautar investimentos em todo o mundo durante a retomada. 

Por Karina Souza 

Fonte: Exame